Under the Dome, a série

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Ficha Técnica

  • Direção: Brian K. Vaughan – com intromissões do Sr. King;
  • Roteiro: Stephen King, Brian K. Vaughan;
  • Elenco: Rachelle Lefevre, Mike Vogel, Colin Ford e mais;
  • Gênero: Drama, ficção-científica, mistério;
  • Lançamento: 1ª temporada – 24/06/2013; 2ª temporada – 31/06/2014.

 

Baseada no livro homônimo de Stephen King, Under the Dome é foda. A série tem como produtores Steven Spielberg e o próprio King – que ainda mete o bedelho no roteiro e na direção. Vamos lá pra nossa sinopse!

Num belo dia, a não tão pacata cidadezinha de Chester’s Mill, no Maine, recebe a sinistra visita de uma redoma. Suas origens, matérias-primas e razão de existência ninguém sabe, porém ela é impenetrável, indestrutível e não comporta WiFi, nem qualquer tecnologia do demônio. Como nós sabemos bem, quando algo assim acontece e muita gente fica muito presa por muito tempo, a tendência é dar muita merda. E é exatamente o que acontece em Chester’s Mill.

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Hoje (bem, no dia em que isso foi escrito) eu descobri que teremos uma terceira temporada, então pode glorificar de pé, igreja! Não temos uma data exata, mas será entre junho e julho deste ano! Rumores diziam que a série ia mal das pernas e, talvez, fosse cancelada ao término da segunda temporada, mas graças aos deuses das artes isso é mentira – e olha, se aquele season finale fosse o último episódio eu morria. E dava na cara de todo mundo. E não, não adianta ler o livro, porque são produções muito diferentes.

Bem, Under the Dome é uma série muito boa. Curta para os padrões americanos, com apenas 13 episódios por temporada, quem se envolve com a trama (como eu) morre dolorosamente a cada episódio, tendo em vista que todos eles têm um cliffhanger terrível que nos deixa com um aperto nas entranhas. Fiquei tão ligada nessa série que terminei a primeira temporada em uma noite, no dia seguinte parti pro livro e assim que descobri a segunda temporada, terminei em uma noite também. Isso aconteceu no decorrer de três ou quatro dias.

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E por que essa série é tão maravilhosa?

Ela trata de um assunto extremamente velho e já cansativamente trabalhado por vários autores diferentes, mas que, ainda assim, nunca fica fora de moda. Ou resolvido. King destrincha as relações humanas e como elas se comportam em momentos de alta tensão. Nós conseguimos ver em todos os episódios cada personagem sendo esviscerado e seu cerne revelado. O que nem sempre se mostra algo bom. Eu ainda estou lendo o livro, mas dá pra ver que ele trata tudo isso de forma muito mais profunda lá – também pudera, aquilo tem quase mil páginas.

Outro motivo para a maravilhosidade de Under the Dome: todos os personagens são extremamente interessantes (apesar de eu ter um sério problema com alguns deles). Eles foram construídos de uma maneira tão genial que, em dado momento, a gente chega a sentir uma certa afeição pelo vilão, que é um nojo de pessoa. Eu, pessoalmente, sou apaixonada pela Angie McCallister e pelo Dale Barbara, eles são os melhores de todo o universo, mas todos eles são incríveis, não existe um único personagem mal feito.

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E o melhor motivo de todos: tem um casal inter-racial de lésbicas. Elas têm uma filha. Elas se amam muito mesmo. Elas são lindas. Sem mais.

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Não contente em dominar o mundo com isso, King tornou tudo na série muito familiar a nós, de certa forma. Apesar de nenhum de nós ter ficado preso em uma cidade por tempo indeterminado devido à uma redoma possivelmente alienígena, dá pra se relacionar e se identificar com Chester’s Mill a todo o momento. É algo impressionante. Pouquíssimas séries se tornaram tão íntimas para mim e isso se deu justamente porque esta foi construída de modo a nos deixar próximos de tudo e todos nela. A gente se afeiçoa muito fácil com os personagens e tudo o que eles passam durante seu aprisionamento e queremos vê-los felizes o quanto antes.

Mas, infelizmente, tudo tem um lado ruim.

Sendo feminista e estando desempregada, eu passo o dia lendo textos sobre os mais diversos assuntos e estudando sobre como o machismo e a misoginia influenciam a nossa sociedade. Stephen King é um dos maiores autores de todos os tempos, é um gênio visionário e tem personagens femininas maravilhosas em seus livros. Mas ele é um homem cisgênero em uma sociedade que o privilegia por isso, então, infelizmente, eventualmente ele pode agir como um babaca. E isso acontece em Under the Dome.

ALERTA!

A partir de agora terão spoilers sobre a série e sobre o livro. Se isso é algo que te incomoda, não leia e pule 10 parágrafos.

Existe um personagem chamado James Rennie Junior. É um rapaz de, se não me engano, 21 anos e ele é filho de um dos vereadores mais influentes da cidade, o Big Jim. Junior se relaciona esporadicamente com uma menina chamada Angie McCallister, que não tem pais influentes, é descontente com a vida e, na série, trabalha de garçonete no restaurante Sweet Briar Rose. Ele é apaixonado por ela desde a terceira série e, conforme ele cresce, essa paixão se transforma em obsessão.

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No primeiro episódio da série, antes da Redoma cair, os dois estão na casa de algum deles (não me lembro qual) e eles transam. Depois, quando Angie está se vestindo, Junior começa a falar sobre planos de namoro e ela o corta, dizendo que eles não namoram e que ela não o ama. Ela vai embora e, pela cara dele, eu vi que ia dar merda. Mais tarde, a Redoma cai, a cidade vira um caos, Junior sai à procura de Angie e a encontra na porta do hospital, fumando e conversando com Barbie.

Junior fica puto, por que como ela se atreve a conversar com outro homem quando eles nem estão namorando? Aí o que ele faz? Ele a sequestra e a prende no abrigo contra terrorismo que seu pai construiu. Ele a deixa lá por cinco dias, com um dos pés acorrentado à cama.

No livro a situação é mais perigosa, pois ele vai até a casa dela, a espanca e mata. E King descreve tudo isso com uma riqueza de detalhes perturbadora. Mas, como eu não terminei o livro ainda, vou me ater apenas à série.

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Além do óbvio, essa situação me é muito desconfortável por causa do modo como tratam o Junior. Não deveria ser, pois não é diferente do que é feito na vida real. Mulheres todos os dias sofrem nas mãos de abusadores – na maioria dos casos, dentro de sua própria casa – e as pessoas conseguem encontrar uma forma de colocar a responsabilidade nela. Ou, se não isso, de simplesmente não colocar a culpa na mão que bate. O agressor é sempre absolvido, ainda que a culpa não seja posta efetivamente na agredida. Não só Junior é perdoado, como ele é uma das chaves para se desvendar a Redoma. Aí na segunda temporada, quando Angie é morta (não pelas mãos do Junior), todos ficam falando sobre como ele está sofrendo, porque ele a amava tanto.

E por que isso é culpa do King?

O que porra ele tem na cabeça pra fazer isso? Transformar um agressor, um espancador de mulheres, num dos personagens mais importantes da série? Minimizar o que ele fez, fazendo com que os outros personagens se afeiçoem a ele e digam que ele amava aquela menina.

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King não é burro. Ele tem plena noção da sociedade onde ele vive e de como ela funciona. Sabe muito bem que quase todo mundo vivo hoje não tem senso crítico nem noção das coisas. Até mesmo as pessoas que o leem. Ele devia entender que colocar essa reação – ou falta dela – frente a uma situação como essa é algo extremamente nocivo. Reforça ainda mais esse pensamento implícito de que espancadores e agressores de mulheres agem por amor. Que, no fundo, eles se importam com a moça e só fizeram aquilo num momento de raiva. Não eram eles mesmos. Já está mais do que na hora de acabarmos com essa visão.

Esses homens sabem muito bem o que estão fazendo. São pessoas normais, que têm filhos, trabalham de terno e gravata e dirigem carro do ano.

E eles agem assim, porque, na cabeça deles, a mulher alvo das agressões não é uma pessoa. Muitas vezes, eles se sentem donos dela; acham que estão ali para servi-los e fazer suas vontades. Elas não têm vontade própria nem identidade, elas têm o que eles disserem que elas têm.

É assim que Junior Rennie via Angie McCallister, por mais que ela lutasse contra isso. E o modo como os outros personagens reagiram à ele é romantização e naturalização do abuso, claro e simples. Portanto, eu me decepcionei muito com a atitude do King com relação à essa parte da história. Ele perdeu uma ótima oportunidade de conscientizar as pessoas sobre relacionamentos abusivos e como eles se comportam na sociedade, mas é o que eu disse, ele é homem cis e, eventualmente, eles fazem merda.

Pra minha felicidade, a série é muito mais do que o relacionamento problemático de Angie e Junior; é muito mais profunda do que isso. Então eu recomendo com força que vocês assistam e que leiam o livro também (afinal, não existe algo como muito Stephen King).

“Give a man or woman back his self-respect, and in most cases – not all, but most – you also give back that person’s ability to think with at least some clarity.”

 


P.S.¹: Quero deixar um agradecimento especial à Heloísa, que me emprestou o livro poucas horas depois que eu fui chorar com ela por ele! Um beijo, linda.


 

Então é isso, pessoal! Se vocês gostaram, sigam o blog pra mais conteúdo divertido assim, comentem aqui em baixo e compartilhem prezamigue verem. Se vocês não gostaram, façam tudo isso assim mesmo porque sim! Se vocês têm alguma sugestão, ou gostariam que eu falasse sobre alguma coisa, me digam nos comentários ou me mandem um e-mail (o endereço está ali na descrição, embaixo da minha foto divônica).

SAVE THE DATE: 01/03, no domingo, teremos a resenha de Selma! E eu prometo não atrasar dessa vez…

 

Abraços quentinhos!

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