Precisamos falar sobre…

Sim, sobre aborto.

Aviso de conteúdo: Esse texto é crú, não tem intenção nenhuma de ser sério e frio e trata de assuntos que podem ser delicados, como aborto e hipocrisia. Tem palavras chulas e de baixo calão e, segundo minha melhor amiga e crítica, ficou pesado. Se você acha que pode te fazer mal, não leia.

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Gente, eu juro pra vocês que pouca coisa me dá tanto nervoso quanto ouvir gente falando sobre o aborto.

Eu vou tentar o meu melhor para não perder as estribeiras e ser didática. E eu sei que pessoas de todos os gêneros podem abortar, mas como a incidência é estratosfericamente maior para mulheres cis (além de toda a questão social por trás disso), eu vou falar delas, até mesmo porque é onde eu me encaixo, então tenho propriedade pra falar sobre.

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Explicando algumas coisas:

A primeira coisa que todo mundo, e eu realmente quero dizer todo mundo, precisa entender é: aborto não é questão de opinião. Significa que você não pode ter uma opinião formada sobre isso? Não. Significa apenas que a sua opinião pessoal não importa em nenhuma esfera desse processo. A única opinião que deveria importar é a da pessoa que vai passar por isso. E outra, você sabe que mesmo você sendo contra o aborto, mulheres abortam? Então, é, não importa o que você acha…

No uterus, no opinion

Outra coisa que todos precisam ter bem clara em suas mentes é que ninguém é a favor do aborto em si. Caso você não saiba, aborto, quando não é espontâneo, é uma cirurgia, é invasivo e desconfortável, então ninguém o faz levianamente. As pessoas são a favor da legalização – ou da descriminalização – do procedimento. São a favor da mulher ter o direito de escolher o que faz com o próprio corpo e não ser condenada à prisão (ou, como é mais comum, à morte) por isso.

Eu não vou discutir dogmas religiosos. Eu não vou debater quando a vida começa. O que você precisa saber é que existe muita discussão sobre isso ao redor do mundo e que as pessoas variam entre a 12ª e a 23ª semana de gestação para que um embrião seja considerado vida ciente. Antes disso, é determinado que o sistema nervoso dele seja tão primitivo, que ele não sente nada. Nem dor nem nada. Saiu uma notícia ano passado que o Conselho Nacional de Medicina recomenda que o procedimento seja realizado legalmente até o terceiro mês da gestação, o que dá em torno de 12 semanas – vou deixar o link dessa notícia lá embaixo.

Tendo em vista que nosso Estado é laico, esse é o único pensamento a ser levado em conta. Sim, ninguém se importa com o que seu pastor, padre, pai de santo, orientador ou qualquer coisa assim te diga. Ninguém se importa com o que ele acha. Essa é a única opinião e o único argumento válido nessa questão.

Ou deveria ser.

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Sobre a campanha do Facebook:

Por esses dias tem rolado no Facebook a campanha “Grávidas contra o aborto” ou qualquer asneira parecida com essa. Consiste em moças que estão ou já estiveram grávidas postando fotos com aqueles barrigões imensos e um texto enorme de como a gravidez mudou suas vidas pra melhor, como seus bebês são/serão presentinhos embrulhados por Jesus e como elas ficam absurdadas ao saber que o aborto acontece.

Isso tudo é um monte de baboseira.

Você tem todo o direito – e, na verdade, é o que eu desejo a todes que queiram engravidar – de sentir que sua gestação é, simplesmente, a melhor coisa que poderia ter acontecido contigo. Melhor que ir pra Disney ou comer bolo. Isso é bacana, cara, e conforme seu embrião for se transformando numa vida de fato, essas sensações positivas têm bons efeitos sobre todo o processo. Se você, pessoa grávida que me lê, se sente assim eu fico *muito* feliz por você. De verdade.

O que você não tem direito NENHUM de fazer é exigir que todas as grávidas se sintam assim. Dá um ligue na listinha abaixo.

Coisas que nem toda mulher sente:

  • Vontade de ser mãe;
  • Que maternidade é a melhor coisa que pode lhe acontecer;

Isso pode ser chocante pra você. Pode tomar uns minutos para absorver isso, eu espero.

Compreendeu? Guardou com carinho no coração? Lindo, então chega dessa babaquice.

~~*~~

Chegou a parte pesada! Faço menção à morte, sangue e, possivelmente, pinto imagens que podem ser perturbadoras. Se você for sensível, pule 5 parágrafos até o próximo sub-tema.

Eu preciso muito que você entenda mais uma coisa, mas essa é muito importante. É estritamente necessário que você compreenda o que eu vou dizer pra que essa conversa continue a fluir bem.

Ser contra a legalização do aborto te torna indiretamente responsável pela morte de 250 mil mulheres todo ano.

Perceba, ser contra a legalização do aborto te torna indiretamente responsável pela morte de 250 mil mulheres todo ano. Não é contra o procedimento aborto, mas contra a legalização do mesmo. Ou seja, enquanto você continuar gritando pra que o aborto voluntário permaneça um crime, você está com o sangue de quase meio milhão de mulheres nas mãos.

Ao final deste texto, eu vou deixar links para depoimentos de mulheres – muitas delas são mães – sobre suas experiências com o aborto; vou deixar o link pro documentário Clandestinas que é uma das melhores coisas que eu já vi na minha vida e um link pra que você entenda qual é a proposta de legalização do aborto.

Você pode achar isso um absurdo, mas é verdade. Enquanto você está aí, atrás de uma tela de computador, postando no Facebook imagens sensacionalistas e mentirosas de um “feto” abortado coberto de sangue, ou um vídeo de uma mulher que abortou um “bebê” e, tempos depois, ela morreu louca porque o fantasma do “bebê” a estava perseguindo, tem mulher morrendo de verdade de hemorragia por conta de uma agulha de tricô que ela enfiou na vagina afim de interromper sua gravidez. Tem mulher morrendo porque teve medo de ir ao hospital fazer curetagem depois que ela tomou Cytotec® ou chá de cabacinha. E quanto mais você se empenhar em ser um babaca, mais mulheres vão morrer. Porque a lei não protege ninguém, ela serve só pra matar mulheres mesmo.

~~*~~

Ideias que as pessoas precisam mandar pro inferno:

  1. Se o aborto for legalizado, vai virar método contraceptivo.
    Cara, não. Tira a cabeça da bunda e começa a observar e entender o mundo em que você vive. Existem tantos depoimentos por aí mostrando que só aborta quem está em desespero que eu me sinto ridícula de ter que ficar repetindo esse tipo de coisa. Parece que eu tô falando com crianças de 3 anos, que precisam ouvir algo repetidamente pra entender o que foi dito. Aborto nunca foi, nem nunca vai ser, considerado método contraceptivo. Parece que é fácil como tomar pílula. Gente, pelo amor de tudo que é mais sagrado, vamos parar com isso, tá?
  1. Aborto causa sérios danos psicológicos a quem o faz.
    Não. O que causa sérios danos psicológicos à mulher que aborta é a culpa que ela sente, originada de uma cultura opressora que diz à ela que ela é uma assassina. De qualquer forma, o aborto é uma cirurgia, portanto podem ocorrer complicações e essas complicações podem ferir o emocional e o psicológico da mulher, óbvio. Mas isso é exceção.
  1. Aborto causa câncer de mama.
    Não. Só não.
  1. Aborto causa esterilidade.
    Não, cara, para!
  1. Não quer engravidar, fecha as pernas.
    Ninguém te paga pra ser fiscal de foda, então vai pra merda.
  1. Você tem que arcar com seus erros.
    Mesma coisa você consertar uma cagada que fez e ser obrigada a carregar um peso enorme por nove meses, passando por mudanças hormonais e físicas enormes, correr o risco de uma gravidez perigosa, correr o risco de sofrer complicações no parto, correr o risco de sofrer violência obstétrica, pra depois de tudo isso ficar mais de dois anos dormindo mal, comendo mal, vivendo mal e se fodendo de verde e amarelo. Deus tá de olho nessas ideia errada.
  1. Não quer criar, só dar pra adoção.
    Essa é a que mais me impressiona. Fácil assim, né, gente? Foda-se o inferno que essa criança vai passar durante a vida. Foda-se que o processo de adoção é uma burocracia da porra no Brasil. Foda-se que essa criança vai passar a vida se perguntando o que tem de errado com ela por ter sido abandonada. Queria saber que tipo de merda tem na cabeça de vocês. Juro, não consigo entender como isso pode ser considerado uma solução humanitária. Hipocrisia mandou lembranças.
  1. Se o aborto for legalizado, vai aumentar o número de abortos feitos.
    Não. Todos os países que legalizaram o aborto observaram uma queda drástica no número de procedimentos realizados, além da anulação do número de mulheres mortas por isso; o caso mais recente é o Uruguai. E não, não é porque você acha o Brasil uma bananalândia que isso não daria certo aqui.

Outra coisa.

Vocês são tão hipócritas e falsos que, olha… Pró vida só enquanto tá no útero, né? Dali pra fora, o problema é de quem pariu e de quem nasceu, afinal ninguém tem nada a ver com isso, certo? Pró vida só até descobrir que o feto é homossexual ou trans, né? Pró vida só pra cima da mulher, né, porque homem abandona mulher grávida todos os dias e ninguém vai lá exigir que ele cumpra “seu papel de pai”.

~~*~~

Falando em macho cis, é com vocês que quero falar agora.

Você, como indivíduo, tem todo o direito de formar uma opinião sobre o procedimento voluntário do aborto. Claro que tem, é impossível que isso não aconteça. Agora, você, menos do que qualquer outra pessoa, não tem o direito de condenar a mulher que aborta. Na lista inexistente de quem tem direito, você é o último. Sabe por quê? Porque você nunca, em toda sua vida, vai precisar passar por isso.

“AI MAS O FILHO É MEU E EU QUERO TER!” – Eu entendo que pode ser doloroso pra você e defendo que, nesse caso, o casal precisa conversar sobre isso juntos. Mas no fim das contas, a escolha é da mulher e apenas dela.

“ENGRAVIDEI UMA MENINA E QUERO QUE ELA ABORTE, MAS ELA NÃO QUER ABORTAR!” – Vai criar vergonha nessa porra que você chama de cara e vai criar essa criança junto com a garota. Da mesma forma que você não tem o mínimo direito de condenar quem quer abortar, você tem menos direito ainda de obrigar alguém a passar por isso. Não vai sair dessa lindo e cherôso, não. Vai ficar lá do lado dela e vai ser um pai decente. Sem reclamação. Babaca.

Pronto, é só isso.

~~*~~

Não basta a gente conseguir a legalização pela legalização. É preciso dum container de coisas pra que tudo flua. Eu vou mencionar as que eu acho mais importantes e também as únicas que eu lembrei, se você tem mais coisa, comenta!

  1. Uma campanha de educação e conscientização sexual pesada, principalmente nas periferias – que é onde a desinformação atinge com mais força;
  2. Mais creches em tempo integral;
  3. Aumento no tempo da licença paternidade, afinal de contas a presença do pai na vida da criança é fundamental, principalmente no começo.

Vamos parar de achar que é obrigação só da mãe criar e educar os filhos, tá? Ninguém faz filho com o dedo. Também é responsabilidade do pai acordar às três da madrugada pra dar mamadeira; trocar fralda e ficar sujo de merda; dar banho; dar mamadeira durante o dia; assistir Galinha Pintadinha quando a criança não para de chorar; fazer a criança dormir; levar e buscar a criança na creche; FAZER A JANTA; LIMPAR A CASA; ARRUMAR A BAGUNÇA QUE SUA CRIANÇA FAZ NA SALA; LAVAR E PASSAR ROUPA; FAZER COMPRA DO MÊS. Tudo isso também é obrigação sua, pai. Não vai achando que vai ter filho só pra fazer graça na frente dos outros e tirar foto em posições cômicas. Cria vergonha na cara. Babaca.

~~*~~

Bem, esse foi um dos textos mais difíceis que eu já escrevi, mas espero sinceramente que tenha sido útil a quem pensa como eu e que tenha feito que não pensa refletir sobre o assunto. Não quero ofender ninguém com o que eu disse, apesar de ter sido bastante ríspida e grossa em alguns momentos, mas juro que é só meu jeito de falar mesmo. Gostaria muito que vocês comentassem aqui o que acharam e o por quê de pensarem da forma que pensam. Esse assunto é um dos que mais precisa ser debatido e difundido, pra que a ignorância e a hipocrisia deem lugar aos fatos e a vida das mulheres possa melhorar.


Links prometidos ou não:


Então é isso, pessoal! Se vocês gostaram, sigam o blog pra mais conteúdo divertido assim, comentem aqui em baixo e compartilhem prezamigue verem. Se vocês não gostaram, façam tudo isso assim mesmo porque sim! Se vocês têm alguma sugestão, ou gostariam que eu falasse sobre alguma coisa, me digam nos comentários ou me mandem um e-mail (o endereço está ali na descrição, embaixo da minha foto divônica).

Sei que estou atrasada com a resenha de Selma. Sei que prometi nunca mais atrasar. Bem, that’s life, às vezes a gente se atrasa com as coisas. A resenha sai amanhã (prometo, ela já tá quase pronta)!

Abraços quentinhos.

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