Metrô

metrô

Ela estava no metrô. Dia chuvosos, frio em São Paulo. E ela não gostava do frio – era chato, distante, “frio”… Talvez não gostasse do frio porque sua vida já era gelada demais para saturar essa sensação em sua pele, em seu coração. Estava para completar vinte anos e era complicado para ela pensar que a segunda década da sua vida estava por acabar e só podia exibir os troféus das grandes decepções que teve em vida.

Encostando a cabeça no vidro duro, olhou para a estrutura acinzentada do túnel, que acomodava a locomotiva… Como não podia se lembrar da época que estar no útero da sua mãe era seguro… como no túnel, no útero começa a trajetória.

Passa-se algumas estações, ainda envolta naquela estrutura de concreto… como nos primeiros anos cercados pelos cuidados da mãe.

Então o trem passa nos trilhos que não estão envoltos pelo concreto, e chega na primeira estação que também não está no túnel… “que estranho não seguir o padrão – ela pensou. Mas era como a vida seguia, se desprendendo do cais onde passamos tanto tempo ancorados.

Uma lágrima cai.

E continua a locomotiva, seguindo seu caminho, naquela rapidez que é sentida e ouvida pelo atrito com o ar. O som é forte, como resistência… como tudo na vida, problemas são a forma de resistir e não sucumbir à tristeza do mundo.

Outra lágrima cai.

A locomotiva, a cada parada, se enchia de gente. E barulho. E ar quente. E pressa. Ela pensava que o mesmo acontecia com a gente. Que as pessoas se enchem de amigos, de inimigos, de rumores, de nervoso, de ansiedade… Há algumas coisas bonitas no caminho – a voz da pessoa que indica as estações e quais os lados de desembarque. Alguns passageiros. Algumas crianças. Ela se atentava com certa doçura a tais detalhes, e sorria.

E as lágrimas não se continham. Para a tristeza que transbordava em seu coração.

Seriam aqueles detalhes bonitos aqueles mesmo detalhes que nos encheu de alegria? Os melhores amigos? As crianças que gostamos? As pessoas que tanto amamos um dia? Diríamos isso? – ela pensou e com um sorriso, quase que irônico, estendeu a mão a um bebê que bagunçava no colo da mãe, sentada no banco à sua frente. Mas percebeu a recusa da criança de dar sua mão àquela estranha – “faz bem, tome cuidado com quem te oferece a mão alguns, meu pequeno, lhe darão ajuda alguns te afundarão – dizia em tom interno, mas era sua retaliação diária.

Chega-se ao meio da trilha. Era uma cheia de baldeações e quase todo mundo desceu. “Talvez seria mesmo aquela hora que a gente mais se encontra vazio? – ela pensou. E começou a chorar. Uma senhora, ao perceber a moça chorando copiosamente, se aproximou dela e segurou-lhe a mão. “Que medo te toma a paz, menina? Calma, que ainda tens muito a andar”ˆ- a senhora declarou e saiu.

“Meu Deus, o que eu posso fazer?– olhava para as mãos vazias, as roupas lhe pareciam puídas, e o caminho continuou naqueles trilhos, na mesma velocidade e a cada estação lhe parecia mais e mais rápido.

Respirava fundo, mas sentia as mãos mais vazias do que nunca.

De repente, ouve-se um estralo. As luzes se apagam, e todos gritam dentro do trem. A estacão estava iluminada. O trem apagado. Muitos estavam perguntando o que aconteceu. A menina se encolheu, e voltava a chorar copiosamente. Ninguém conseguia entender mais a situação.

Do nada a locomotiva volta a andar. Todos se entreolhavam, e espantados com o movimento, alguns bateram nas portas para sair. Ouvem o anúncio com a justificativa da pane e continuam a viagem.

A locomotiva chega à estação final. Todos desembarcam, menos dois.

Ele ali, tentava entender o que aconteceu com a mocinha que ali estava do seu lado durante toda a viagem, e que agora estava lá, paralisada.

Ela, quis entender o que de fato aconteceu consigo mesma: não sentia mais nada.

Não ouvia mais nada.

Não era mais ninguém.

Giane Higino

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